terça-feira, 11 de março de 2014

O EVANGELHO É JESUS



Percebo que a ausência de compreensão Bíblica sobre o Evangelho (sua identidade e natureza) tem sido a raiz de muitos males na Igreja de Cristo. Escrevo, a seguir, uma consideração Bíblica sobre o assunto e minha oração é que seja de edificação para o seu e o meu coração.

O Pacto de Lausanne, oficializado em 1974 por líderes de 150 países, sintetizou a missão da igreja, expressando que o propósito de Deus é oferecer o Evangelho todo, por meio de toda a igreja, a toda criatura, em todo o mundo.

Paulo escreveu a carta aos Romanos enquanto estava em Corinto, possivelmente no ano 57. Ele estava de partida para Jerusalém, levando a oferta para os crentes pobres e aproveitou a saída de Febe - uma senhora de Cencreia (derredores de Corinto) que viajava para Roma - para escrever uma carta à nova e respeitada igreja.

Havia tanto judeus quanto gentios na igreja de Roma, mas os gentios predominavam em número. Era uma igreja com a fé alicerçada em Cristo e liderança reconhecida. Paulo estava no fim de sua terceira viagem missionária e planejava seu próximo passo. Ele, assim, escreve à igreja antes mesmo de visitá-la. Uma comunidade de crentes no centro do Império, em uma cidade com cerca de um milhão de pessoas.

Paulo escreve essa carta a duas mãos, por assim dizer, como teólogo e como missionário. Como teólogo, ele enfatiza que a finalidade da igreja é a glória de Deus. Como missionário, ele expõe que a prioridade da igreja é proclamar Cristo onde Ele não foi anunciado.

Agostinho, Lutero e John Wesley vieram ao Senhor Jesus por meio dos textos da carta aos Romanos. Lutero afirma que jamais um texto mudou tanto a vida de homens e mulheres como o dessa carta. Calvino dizia que Romanos era uma introdução à Bíblia e Melancton a transcreveu, duas vezes, à mão, para conhecê-la melhor.

No capítulo 1, verso 1, de Romanos, Paulo se apresenta e o faz a partir de suas convicções mais profundas. Ele, aqui, é “Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo, separado para o Evangelho de Deus”. Ele afirma ser “servo” – doulos – escravo comprado pelo sangue do Cordeiro, liberto das cadeias do pecado e da morte e, apesar de livre, cativo pelo Senhor que o libertou.

Ele afirma ser chamado para ser “apóstolo”, demonstrando que alguns servos podem ser chamados ao apostolado, porém não há apóstolos que não sejam, primeiramente, servos.

Vivemos dias difíceis em que as convicções bíblicas mais profundas são questionadas dentro e fora da igreja. É necessário alicerçarmos nossas convicções bíblicas missionais.

A IDENTIDADE DO EVANGELHO

Devido a uma influência secularista, liberal e reducionista na missiologia das últimas décadas, houve uma humanização de conceitos que necessitam urgentemente de revisão bíblica. Talvez o principal seja o próprio Evangelho. Não é incomum lermos que “o Evangelho está sendo atacado no Egito” ou que “o Evangelho está entrando nos lugares distantes da Amazônia”. O que se quer dizer é que a igreja está sendo atacada e entrando na Amazônia, manifestando que, em nossos dias, passamos a crer que a igreja é o Evangelho.

Essa equivocada compreensão cristã que iguala o Evangelho à igreja - a nós mesmos - é ampla e popular, mas tem suas raízes em distorções bíblicas e teológicas que podem nos levar a caminhos erráticos na vida e prática cristã. É consequência, sobretudo, da teologia liberal com cores humanistas dos anos 60.

Em seus escritos, Paulo sempre descreve seu ministério, ora dizendo que prega o Evangelho, ora dizendo que prega Cristo, ensinando-nos qual é o conteúdo do Evangelho.

Romanos 1, do verso 1 ao 7, fala-nos claramente sobre isso. Paulo diz ser chamado “para o Evangelho de Deus” (v.1), Evangelho que foi “prometido por intermédio dos seus profetas nas Sagradas Escrituras” (v.2), diz respeito ao “Seu filho” (v.3), a saber, “Jesus Cristo, nosso Senhor” (v.4). Ou seja, Jesus é o Evangelho.

A expressão grega euaggelion – boas novas – refere-se ao cumprimento da promessa – epaggelia. Jesus é, portanto, tanto a epaggelia quanto o euaggelion – tanto a promessa quanto seu cumprimento. É uma expressão que testifica que a promessa anunciada em todo o Antigo Testamento está entre nós!

Jesus, portanto, é o Evangelho. Usando cores fortes no verso 16,
Paulo afirma que “não me envergonho do Evangelho”, ao que ele quer dizer: “eu não me envergonho de Jesus”. Quando ele afirma que o Evangelho “é o poder de Deus”, deseja comunicar que “Jesus é o poder de Deus”. Quando ele, categoricamente, destaca que o Evangelho é poderoso para “salvar a todo aquele que crê”, refere-se a Cristo: “Jesus é poderoso para salvar a todo aquele que crê”.

Assim, se nos envergonharmos do Evangelho, estamos nos envergonhando de Jesus. Se deixarmos de pregar o Evangelho, deixamos de pregar Jesus. Se não cremos no Evangelho, não cremos em Jesus. Se passamos a questionar o Evangelho, seus efeitos perante as culturas indígenas, africanas e asiáticas, sua relevância nos centros urbanos brasileiros, nós não estamos questionando uma doutrina, um movimento ou a igreja, estamos questionando Jesus.

O que Paulo expressa nesse primeiro capítulo é que, apesar do pecado, do diabo, da carne e do mundo, não estamos perdidos no universo.

John Piper nos diz que não há verdadeiro Evangelho sem Deus e sua revelação em Jesus Cristo. Portanto, há um plano de redenção e Ele se chama Jesus. O poder de Deus se convergiu em Jesus. Ele nos amou com amor infinito. Ele está entre nós.

Paulo diz de forma claríssima: “Não me envergonho”. A expressão aqui usada para vergonha apontava para uma posição de desconforto, quando alguém é destacado e criticado por muitos, ridicularizado.

Perante isso, o Apóstolo Paulo brada: “eu não me envergonho...”. O Evangelho é o poder de Deus. O Evangelho é Jesus.

A NATUREZA DO EVANGELHO

Agora que compreendemos a identidade do Evangelho, gostaria de destacar algumas implicações quanto à sua natureza, ou seja, o conjunto de valores que o define.

Em primeiro lugar, o Evangelho jamais será derrotado, pois o Ele é Cristo. Sofrerá oposição e seus pregadores serão perseguidos. Será caluniado, mas jamais derrotado.

Em segundo lugar, o Evangelho não é o plano da igreja para a salvação do mundo, mas o plano de Deus para a salvação da igreja. O que valida a igreja é o Evangelho, não o contrário. Se ela deixa de segui-Lo, de seguir a Cristo, se ela passa a absorver o imperialismo, o humanismo, o triunfalismo, e esquecer-se de Jesus, deixa de ser igreja. A igreja só é igreja se for evangélica – se seguir o Evangelho.

Em terceiro lugar, o Evangelho não deve ser apenas compreendido e vivido. Ele se manifestou entre nós para ser pregado pelo povo de Deus. Paulo usa essa expressão diversas vezes. Aos Romanos, ele diz que se esforça para pregar o Evangelho (Rm 15.20). Aos Coríntios, ele diz que não foi chamado para batizar, mas para pregar o Evangelho (1 Co 1.17). Diz também que pregar o Evangelho é sua obrigação (1 Co 9.16).

Devemos proclamar o Evangelho – lançar as sementes – a tempo e fora de tempo. Provérbios 11 nos encoraja a lançar todas as nossas sementes, “... pela manhã, e ainda à tarde não repouses a sua mão”. Essa expressão de intensidade e constância nos ensina que devemos trabalhar logo cedinho – quando animados e dispostos – e quando a noite se aproximar, o cansaço e as limitações chegarem, ainda assim não deixar de semear. Fala-nos sobre a perseverança na caminhada e no serviço. Ou seja, é preciso obedecer mesmo quando o sol se põe.

Em 2008 tivemos um lindo encontro indígena evangélico no Amazonas com a presença de mais de 1.200 indígenas de 47 diferentes etnias. Foi uma festa espiritual. No último dia, um cacique da etnia Ixkaryana me procurou para agradecer pela hospitalidade e, ao fim, mencionou: “agora eu compreendi o Evangelho”. Essa afirmação chamou a minha atenção e procurei saber um pouco mais a respeito, visto que havíamos estudado naqueles dias sobre Jesus, o Evangelho vivo de Deus. Após, muito acertadamente, descrever sua compreensão sobre o assunto, ele completou: “Se precisamos compreender, viver e pregar o Evangelho – e Jesus é o Evangelho vivo de Deus – então precisamos compreender Jesus nas sagradas Escrituras, viver Jesus em nosso dia a dia e pregar Jesus a todo o homem. É simples assim”.

Que o Senhor nos ajude a compreender, viver e proclamar o Nome acima de todo Nome - Jesus.


Ronaldo Lidório


"Quando Eu oro algo vai acontecer"

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